A origem do ecossistema OPIN e a evolução do compartilhamento de dados
A construção de ecossistemas estruturados para o compartilhamento de dados não é um fenômeno recente nem restrito ao mercado financeiro. Esse movimento está inserido em uma transformação mais ampla da economia digital, na qual os dados passaram a desempenhar um papel central na forma como serviços são desenvolvidos, decisões são tomadas e novos modelos de negócio surgem.
Podemos observar que nas últimas décadas, a digitalização das atividades econômicas e sociais ampliou de forma exponencial a geração de informações. Para se ter uma ideia, estimativas indicam que cada pessoa no mundo produz, em média, cerca de 1,7 megabytes de dados por segundo, resultado de interações realizadas em aplicativos, redes sociais, plataformas digitais e serviços online, segundo estimativas divulgadas pela IBM e também em vários estudos internacionais sobre Big Data. Esse volume crescente transformou os dados em um ativo estratégico da economia contemporânea, funcionando como base para o desenvolvimento de novos serviços, produtos, precificação e ecossistemas de inovação.
Nesse contexto ganhou força internacionalmente o conceito de dados abertos (Open Data), baseado na ideia de que o compartilhamento estruturado de informações pode gerar benefícios econômicos e sociais relevantes, uma vez que, quando organizados e utilizados de forma responsável, permitem melhorar serviços, aumentar a eficiência de processos, apoiar decisões estratégicas e reduzir assimetrias de informação entre empresas e consumidores.
Foi a partir dessa lógica que começaram a surgir iniciativas voltadas ao compartilhamento de dados também no sistema financeiro. O início das discussões sobre compartilhamento de dados entre instituições e acesso controlado a informações financeiras ocorreu na Europa ainda no final do século XX, em um contexto de integração econômica entre países e de crescente digitalização dos serviços bancários.
A primeira grande iniciativa regulatória nesse sentido surgiu na União Europeia com a Payment Services Directive (PSD1 - Diretiva de Serviços de Pagamento 1), concebida pela Comissão Europeia em 2007, entrando em vigor efetivamente em 2009. A diretiva estabeleceu um novo marco para os serviços de pagamento no bloco econômico, com o objetivo de estimular a concorrência no setor financeiro, melhorar a qualidade dos serviços prestados e ampliar a proteção ao consumidor. Entre suas principais inovações estavam a criação da figura do Provedor de Serviços de Pagamento, permitindo que empresas não financeiras realizassem determinadas operações, o que impulsionou o surgimento de fintechs.
Esse modelo teve uma importante evolução em 2018 com a entrada em vigor da PSD2 (resultado de 5 anos de desenvolvimento), que ampliou significativamente o conceito de abertura do sistema financeiro. Reguladores europeus determinaram que grandes bancos disponibilizassem, por meio de APIs, o acesso a dados financeiros de clientes para terceiros, sempre autorizado mediante consentimento. Esse movimento consolidou o conceito de Open Banking, permitindo o desenvolvimento de novos serviços, como agregadores de contas e plataformas de pagamentos digitais, além de promover um ambiente mais integrado e competitivo no mercado financeiro.
Em 2023 ocorreu mais um avanço marcante: a União Europeia publicou o primeiro esboço da PSD3, proposta que buscava aperfeiçoar o modelo estabelecido pela PSD2 e ampliar a lógica das finanças abertas. Entre as mudanças em discussão estavam a evolução do Open Banking para um modelo mais abrangente de Open Finance, a redução de obstáculos relacionados às APIs reguladas e a criação de mecanismos que permitam aos usuários visualizar e gerenciar quais serviços de terceiros estão conectados às suas contas.
Com o êxito e amadurecimento, o modelo europeu tornou-se referência internacional e inspirou iniciativas semelhantes em diversos países, incluindo o Brasil. Por aqui, esse debate ganhou força a partir de 2019, quando o Banco Central iniciou formalmente as discussões sobre a implementação de um sistema financeiro aberto. O objetivo era promover maior competição, inovação e eficiência, colocando o consumidor no centro das decisões sobre o uso de seus dados.
A experiência brasileira avançou de forma estruturada com a implementação do Open Banking, posteriormente ampliado para Open Finance, incorporando diferentes segmentos do sistema financeiro. E à medida que esse modelo se consolidava, tornou-se natural que a lógica das finanças abertas também alcançasse setores que dependem intensamente de informações para avaliar riscos e oferecer produtos personalizados, como o mercado de seguros, historicamente baseado na análise de dados.
Nesse contexto surge o Open Insurance Brasil. Mais do que uma iniciativa tecnológica, o OPIN representa a consolidação de um modelo institucional alinhado às melhores práticas internacionais, adaptado às especificidades do mercado segurador brasileiro e às diretrizes da Superintendência de Seguros Privados (Susep).
Para viabilizar sua implantação, o Open Insurance Brasil foi estruturado em três fases iniciais. A primeira concentrou-se na abertura padronizada de informações públicas sobre produtos e canais de atendimento das seguradoras, conhecida como Open Data. Na segunda fase, passou a ser possível o compartilhamento de dados cadastrais e informações de seguros mediante consentimento do consumidor, ampliando a capacidade de análise das instituições participantes. Já a terceira fase introduziu os requisitos necessários para o compartilhamento de serviços dentro do ecossistema, estabelecendo as bases técnicas e operacionais para futuras jornadas mais completas entre os participantes.
A conclusão dessas três etapas marcou a implementação da arquitetura básica do Open Insurance no Brasil, criando as condições para que o ecossistema passasse da fase de implantação para uma etapa de amadurecimento operacional. A partir desse momento, o foco passou a se concentrar no aperfeiçoamento da infraestrutura que sustenta o compartilhamento de dados e a iniciação de serviços. Ferramentas de monitoramento, mecanismos de governança e ambientes de testes para validação das jornadas foram estruturados justamente para acompanhar a evolução das transações, garantir a qualidade das integrações e estimular a adoção gradual do modelo pelas seguradoras, iniciadoras de serviço e demais participantes do sistema.
O ecossistema segue em constante construção, evoluindo à medida que avanços regulatórios e tecnológicos se consolidam e novas formas de uso dos dados passam a transformar a dinâmica do mercado.
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